No último fim de semana, a cantora pop japonesa Hikaru Utada surpreendeu os fãs ao declarar-se não binária durante uma transmissão ao vivo no Instagram. Com mais de 38 anos de idade e uma carreira que a tornou um dos maiores nomes da música asiática, Utada aproveitou o mês de Junho, tradicionalmente dedicado ao Orgulho LGBTQIA+, para partilhar a sua identidade de género. “É o mês de Junho e eu sou não binária. Então, feliz mês do Orgulho”, disse a artista, que também é conhecida pelo seu trabalho como compositora e produtora musical.
A revelação não foi totalmente inesperada para os seguidores mais atentos. No início do mês, Utada já tinha utilizado a conta de Instagram @kuma_power, dedicada ao seu ursinho de peluche Kuma (que significa “urso” em japonês), para expressar o desconforto que sente ao ser rotulada por formas tradicionais de género. Na publicação, a cantora escreveu: “Estou farto de ser questionada se sou ‘Senhorita ou Senhora’ ou de escolher entre ‘Senhorita / Senhora / Senhora’ nas coisas do dia-a-dia. Fico desconfortável por ser identificada de forma tão marcante pelo meu estado civil ou sexo, e não me relaciono com nenhum desses prefixos.” A artista pediu ainda que, no futuro, seja tratada pelo prefixo de género neutro “Mx”, pronunciado “mix”, que considerou “incrível”.
A carreira de Hikaru Utada é marcada por feitos extraordinários. Nascida em Nova Iorque em 1983, filha de pais japoneses ligados à música, ela lançou o seu álbum de estreia, First Love, em 1999, quando tinha apenas 15 anos. O disco tornou-se o mais vendido de todos os tempos no Japão, com mais de 7 milhões de cópias, e catapultou-a para o estrelato. Ao longo das décadas seguintes, Utada consolidou a sua posição como uma das artistas mais influentes do país, com êxitos como “Automatic”, “Can You Keep a Secret?” e “Flavor of Life”. Também ganhou reconhecimento internacional por ter composto temas para a série de videojogos Kingdom Hearts e para o filme Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time.
Além da música, Utada sempre foi uma figura reservada quanto à sua vida pessoal. Casou-se duas vezes e tem um filho de cinco anos do segundo casamento. O divórcio e a maternidade foram temas abordados em algumas das suas canções, mas a questão de género nunca tinha sido publicamente discutida até agora. A decisão de se assumir como não binária é vista como um passo corajoso, especialmente num país como o Japão, onde o reconhecimento legal e social de identidades não binárias ainda é muito limitado.
No Japão, a discussão sobre género e sexualidade tem avançado lentamente. Embora existam comunidades LGBTQIA+ ativas e uma crescente visibilidade nos media, a sociedade japonesa ainda é predominantemente conservadora. A língua japonesa, por exemplo, não possui pronomes neutros amplamente aceites, e a maioria dos documentos oficiais obriga as pessoas a escolher entre “masculino” e “feminino”. Iniciativas como o uso de “Mx” são raras, mas têm ganhado algum terreno em contextos internacionais. A declaração de Utada pode, portanto, contribuir para um debate mais amplo sobre a necessidade de opções neutras no país.
A reação nas redes sociais foi maioritariamente positiva. No Twitter, um utilizador escreveu: “Utada Hikaru apresentar-se como uma pessoa de influência não binária no Japão é uma das coisas mais corajosas que já vi.” Muitos fãs celebraram o anúncio como um marco para a representação LGBTQIA+ no entretenimento japonês. No entanto, também surgiram algumas vozes críticas, com comentários a questionar a validade da identidade não binária ou a acusar a cantora de procurar atenção. Utada, contudo, parece ter lidado com essas reações de forma serena, mantendo-se focada na sua arte e na sua verdade pessoal.
O melhor amigo imaginário de Utada, o urso Kuma, já havia sido mencionado em posts anteriores como uma figura queer. A conta do Instagram dedicada ao urso tem mais de 100 mil seguidores e publica conteúdos que misturam humor e reflexões sobre identidade. Essa personagem permitiu à cantora explorar temas de género de forma lúdica e indireta, antes de fazer a revelação pública. Para muitos fãs, Kuma era um sinal do que estava por vir.
Do ponto de vista musical, Utada continua ativa. O seu último álbum de estúdio, Bad Mode, foi lançado em 2022 e recebeu elogios da crítica pela sua sonoridade experimental e letras introspetivas. A artista tem mantido uma base de fãs leal tanto no Japão como no estrangeiro, e a sua decisão de se assumir não binária pode abrir portas para conversas sobre diversidade na indústria musical japonesa, que ainda é dominada por normas heteronormativas.
O anúncio de Utada insere-se num movimento global de celebridades que têm partilhado as suas identidades de género não binárias, como Sam Smith, Demi Lovato e Miley Cyrus. No entanto, o contexto japonês torna a sua declaração particularmente significativa. O Japão ocupa o 14.º lugar no ranking de igualdade de direitos LGBTQIA+ na Ásia, mas ainda não reconhece legalmente o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a identidade não binária. A visibilidade de figuras públicas como Utada pode pressionar o governo e a sociedade a repensar essas questões.
Ao longo da sua carreira, Utada sempre desafiou convenções. As suas músicas abordam temas como amor, perda, solidão e autodescoberta, muitas vezes com uma profundidade lírica que transcende fronteiras culturais. Agora, ao assumir-se não binária, ela acrescenta mais uma camada à sua já complexa identidade artística. Os fãs aguardam com expectativa para ver como essa nova fase influenciará o seu trabalho futuro, se é que influenciará. O que é certo é que a cantora continua a ser uma voz poderosa, dentro e fora dos palcos.
Source: JTM News